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Um gigante da informática que nasceu em Cernache

De Cernache do Bonjardim para o mundo, o Chairman do Sendys Group, Fernando Amaral, em entrevista ao Jornal Reconquista sobre a sua história e o caminho que percorreu até aos dias de hoje.

De Cernache do Bonjardim para o mundo, o Chairman do Sendys Group, Fernando Amaral, em entrevista ao Jornal Reconquista sobre a sua história e o caminho que percorreu até aos dias de hoje.

Faz 50 anos de vida e 35 de trabalho na área da informática. Foi pioneiro no setor e subiu a pulso, num negócio onde todos os dias se (re)inventa o futuro. A mudança de mentalidades tem de começar já.

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A vida já lhe pregou alguns sustos, mas a superação dos mesmos só serviu para fortalecer a sua determinação.

Chama-se Fernando Amaral, faz este ano 50 anos de vida e 35 desde que entrou no mundo da informática, à data uma dimensão quase desconhecida. Nasceu em Cernache do Bonjardim, no concelho da Sertã, para onde, depois de consolidar a sua aposta empresarial, transferiu a sede do grupo, que detém as duas empresas mais antigas de Portugal no setor, a Sendys e a Alidata. A estas juntam-se mais seis, cinco também na área das tecnologias e uma agência de publicidade.

Foi no SerQ – Centro de Inovação e Competências da Sertã que recebeu o Reconquista, onde tem localizada a LabSeal, o polo de desenvolvimento tecnológico de apoio às empresas do Sendys Group que, nas oito empresas que o constituem, emprega mais de 150 colaboradores e fatura mais de oito milhões de euros por ano, marcando presença em Portugal, mas também Angola, Moçambique, Brasil e China. O seu software de gestão documental e de impressão, o Sendys Explorer, está implementado em mais de 90 países dos cinco continentes, com o envolvimento direto do gigante mundial japonês de impressão, a OKI.

As raízes são o pilar basilar da sua vida e não esquece o que é hoje graças aos ensinamentos do seu pai e à educação que teve. Subiu a pulso e aprendeu que o que os seus clientes mais apreciam é a disponibilidade, daí funcionar 24 horas por dia, nos 365 dias do ano. Também foi este o mote para o nome do grupo: sempre disponíveis, que resultou graficamente em Sendys.

Como privilegia o recrutamento de colaboradores na sua região, tem vindo a desenvolver no Instituto Vaz Serra, um curso técnico profissional na área da informática, que já deu frutos, pois já muitos jovens estagiaram nas empresas do grupo, em Cernache do Bonjardim, em Lisboa e em Leiria. “Dou primazia às pessoas que nasceram no sítio onde eu nasci, porque sei que são criadas de determinada maneira, conheço-as e temos uma cultura de formação muito idêntica. Aposto maioritariamente em pessoas do interior por serem aquelas às quais me adapto mais fácil e rapidamente”.

 

PERCURSO

“Comecei a trabalhar muito cedo, pois o meu pai tinha um negócio e obrigava-me a trabalhar lá nos tempos livres da escola, com 12, 13 ou 14 anos”, sublinha. Mas, “foi a forma como fui criado que me permitiu chegar a sítios onde, de outro modo, não chegaria. A educação, o nosso passado, condiciona o nosso futuro”.

Do interior pacato rumou à grande Lisboa, para estudar direito, o que o colocou numa encruzilhada, pois na bagagem levava o ‘bichinho’ da informática, que acabou por vencer. “Frequentei o primeiro curso de informática que foi feito em Cernache do Bonjardim, no qual fui um dos que se destacou. E era dos poucos no distrito que entendia os computadores”, lembra. Também “a forma como fui criado sempre me aguçou o desejo de aprender, ir à procura, não desistir, ser furão, ter mentalidade de negócio e tudo isso trouxe-me até aqui”. Entrar numa das maiores empresas de informática à época acelerou ainda mais a sua curiosidade e competências, além da sorte de ter tido sempre “uma grande independência no trabalho, sem horários, trabalhando por objetivos”, uma filosofia que continua a defender, fazendo jus ao lema do grupo.

Tendo trabalhado em empresas de referência na informática e consultadoria, “permitiu que andasse 20 anos a estagiar para depois assumir o meu projeto empresarial, ao fundarmos a Sendys. Tinha perfeitamente claro o que queria e para onde queria ir”.

Este espírito empreendedor compara-o a uma frase que não sendo sua, leu e fixou: “todos nascemos incendiários e morremos bombeiros”. Ou seja, “na juventude há muito ‘fogo’, muita pressa de fazer as coisas, mas com a idade ponderamos mais, tentamos ser mais consensuais e por isso vamos ‘vestindo’ a farda de bombeiros”. Além disso, “se todos pisarmos as mesmas pedras, chegamos ao mesmo sítio. Mas o que queremos é chegar a sítios diferentes”, sobretudo num mundo que “em termos tecnológicos mudou muito rapidamente. Há 30 anos não havia carros como os de hoje, computadores e internet como temos hoje e temos hoje de trabalhar à velocidade que as coisas acontecem”. Contudo, “por outro lado, temos de estar a trabalhar em sistemas, em ideias e coisas que ainda não existem, antecipando o futuro e criando coisas que as pessoas ainda nem pensaram que podem ser úteis”.

É por isso que define o grupo com outro lema: “Servimos pessoas, mudamos negócios”, porque, “apesar da base tecnológica, os projetos também têm uma vertente humana, com o desafio de termos de combinar pessoas de geografias diferentes, formadas em contextos e realidades completamente diferentes”, esclarece.

Atualmente, “o nosso maior desafio tem a ver com as pessoas. Desde logo a dificuldade em encontra-las E depois encontrar as que se adequam ao nosso negócio e ao nosso DNA, plasmado no logotipo do Sendys, porque estar sempre disponíveis e encontrar as pessoas certas é o nosso desafio”.

 

Fernando Amaral também tem uma visão muito particular do interior e de como se pode inverter o estigma da interioridade. “Sofremos um pouco da nossa pequenez. Pensamos muitas vezes de forma pequenina e, por isso, teimamos em defender o interior”, afirma, lamentando que esta região só seja notícia no verão “quando os fósforos estão a arder”. Vai mais longe e lembra que “o governo diz que é do interesse nacional a exploração de lítio em Boticas”, defendendo que “também devia ser do interesse nacional que não houvesse incêndios em Portugal. E não é”.

Já a A23 “leva-nos muito rápido a Lisboa, mas esquecemo-nos que tem dois sentidos”, sublinha, atirando a responsabilidade, uma vez mais, “a quem está no interior, pois muitas vezes existe um complexo em passar as portagens de Torres Novas, porque as grandes empresas estão no litoral”. Mas o empresário tem também uma solução. “É muito simples, a solução é ir ter com os investidores e tentar inverter esta situação, mas sem depender do poder político, porque esse trouxe-nos até aqui e aqui não é bom”. Além disso, “se queremos trazer para cá pessoas, temos de mudar a forma de pensar, de cativar. E isso não pode ser feito com uma política de quatro aos, tem de haver um trabalho de continuidade, que não acontece, na busca de um objetivo comum, que é atrair pessoas para o interior”. Mas esta inversão tem de “envolver a todos, sem articulando a componente empresarial, social e política”. Ou então, no caso desta área tecnológica, “podemos trabalhar para fora, como se faz no Fundão. Só é preciso pegar nos bons exemplos e replicá-los”. Fernando Amaral lamenta que muitas vezes os concelhos pareçam inimigos, quando “devia ser o contrário. Se houver uma fábrica em Proença-a- Nova, é seguramente bom para a Sertã, porque muitas pessoas podem ir trabalhar para lá. É este o caminho”. Concorda que “a mudança tem de começar de dentro para fora. Temos de fazer de Lisboa interior e do interior a parte exterior do país”. E esquecer “os estereótipos que existem e não correspondem à verdade”. Tem ainda consciência que “se a sede do grupo estivesse originalmente em Cernache do Bonjardim não teria o mesmo sucesso, mesmo que tivesse o mesmo número de colaboradores e as mesmas competências”.

A mudança de paradigma e mentalidade tem consciência que não se faz de um dia para o outro. “Não é fácil, mas temos de começar por algum sítio. Demora? Sim. Se demorar 20 anos, mas só começarmos daqui a 10, vai demora 30 anos a concretizar-se”, por isso, “o trabalho tem de começar quanto antes”, começando “por fazer cá dentro o que fazemos lá fora. Temos muitas vezes a cultura de ir buscar fora o que muitas vezes é de menor qualidade do que o que se faz cá dentro”. Concorda ainda com a mudança do provérbio e “colocar os santos da casa a fazer milagres, porque se fazem milagres nas outras casas, se calhar também fazem na nossa”.

 

PERFIL

50 anos de vida
35 de atividade
8 empresas
150 colaboradores
92 países
5 continentes
8 milhões de euros de faturação
365 dias disponíveis

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