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23 julho 10

INDÚSTRIA DE MOLDES GARANTE LIDERANÇA COM INVESTIMENTO EM TI

in Semana Informática 9 de Julho de 2010

A competitividade do sector exige que os investimentos em tecnologias de informação e soluções para a produção se mantenham, mesmo em ciclos económicos menos favoráveis.

A capacidade de inovar e responder de forma rápida às encomendas dos clientes são dois elementos fundamentais da estratégia de negócio da indústria de moldes, ou indústria de engeneering & tooling, como é actualmente designada pela cadeia de valor abrangente que envolve.

Servindo áreas da indústria cada vez mais modernizadas, como o cluster automóvel e a indústria aeroespacial, as tecnologias de informação e comunicação evoluíram neste sector de forma acelerada, mantendo-o na crista da onda das ferramentas mais avançadas, sobretudo m relação às plataformas e software de desenvolvimento de produto. As soluções de CAD 3D fazem parte da “norma mínima”, estando estas ferramentas massificadas e demonstrando o arrojo das empresas na aposta tecnológica como suporte de diferenciação e competitividade.

Rui Tocha, director-geral do CENTIMFE, sublinha que esta indústria «tem sido precursora e progressista, na endogeneização e utilização das TIC, explorando modelos de negócios baseados em plataformas, softwares e sistemas sofisticados de desenvolvimento de produto e de transferência de dados». Como exemplo, o responsável pelo Centro Tecnológico ligado ao cluster da indústria e ao Pólo de Competitividade, aponta a introdução, nos anos 80, do CAD/CAM nos processos de desenvolvimento de produto – com pioneirismo a nível europeu –, assim como os modelos organizacionais criados, baseados em transmissão de bases de dados onde a segurança e a confidencialidade foram sempre elementos-chave que têm assegurado o capital de confiança com os seus clientes.

A programação de máquinas CNC e o recurso a soluções de CAD no gabinete de projecto estão entre as áreas tecnológicas mais avançadas, onde o mercado já revela grande maturidade, ao contrário das soluções para gestão e controlo da produção, onde «até há poucos anos não havia soluções que satisfizessem totalmente a indústria de moldes», porque «ainda não há uma utilização generalizada na indústria de moldes», reconhece António Claro, director-geral da sucursal portuguesa da Mirakon AG, uma empresa suíça mas criada por um português. Esta foi precisamente a área onde a Mirakon se especializou, oferecendo soluções de gestão e controlo da produção especificamente para a indústria de moldes, assegurando a interligação com todas as restantes áreas operacionais da empresa, nomeadamente a área de qualidade e comercial. «Esta solução permite gerir e controlar todas as etapas do molde, desde o orçamento à factura ao cliente, o cálculo de custos, a gestão da facturação, o tratamento das não conformidades, etc.», detalha António Claro.

A visão da Mirakon está em linha com a percepção de Gilberto Mendes, fundador da GrandeSoft, que acredita que as necessidades da indústria se centram ainda na necessidade de soluções avançadas, específicas para este tipo de indústria, somando à gestão de produção as soluções de CAM Fresagem 5 eixos e HSM, assim como soluções mais rápidas de CAD e projecto de moldes 3D. É para esta área que a GrandeSoft tem soluções de CAD/CAM e Gestão de Produção, que cobrem as várias áreas, desde o desenvolvimento de produto ou exportação de ficheiros 3D dos clientes à modelação do molde em 3D e exportação da lista de materiais e programação automática de estruturas e eléctrodos.

«Neste momento, é fundamental para as empresas ter não só o controlo dos custos, mas também a capacidade de antecipar e evitar eventuais atrasos dos prazos de fabrico dos moldes», justifica Gilberto Mendes, responsável da empresa de software.

A optimização e redução do número de erros fazem parte também das soluções que a Autodesk tem vindo a desenvolver para esta indústria. Com uma ligação inequívoca à indústria de moldes, a software-house tem várias soluções, incluindo a de Protótipos Digitais, com a nova versão de Autodesk Modflow, que permite optimizar as peças de plástico, os moldes e o processo de modelação de plástico por injecção, proporcionando uma elevada produtividade aos profissionais da indústria. «Os utilizadores podem prever, entre outras coisas, o comportamento do fluxo do plástico no molde, a melhor posição dos pontos de injecção, das linhas de união ou as saídas de gases. Assim, reduzem o número de protótipos físicos necessários para aperfeiçoar o projecto de um molde e entregar um produto mais inovador, mais rapidamente e sem custos acrescidos», destaca Nathalie Carreiras, account nanager da Autodesk Portugal.

Na linha de produtos Autodesk, o Inventor Tooling também já inclui o seu próprio módulo para a criação e validação de projecto completo de moldes com menos erros, bem como para um melhor aproveitamento dos moldes. A associação total com o modelo digital de Inventor contribui para assegurar que as mudanças realizadas no modelo se reflectem automaticamente no desenho do molde.

«A interoperabilidade das soluções abre inúmeras vias de optimização. Por exemplo, determinar quanto crítico é um defeito estético numa peça de plástico no final da injecção e se implica ou não uma modificação do molde», justifica a account manager da Autodesk. Juntando as capacidades da simulação Moldflow ou Inventor Tooling com o fotorrealismo do Autodesk Showcase, já será possível ter uma visão precisa e de qualidade da peça, permitindo à empresa tomar as decisões adequadas.

Gerir com eficácia
Mas, tal como noutras indústrias, a competitividade das empresas de moldes depende também do software de gestão utilizado. A adaptação às necessidades específicas deste sector, que surgem por especificidades do negócio, como o facto de cada molde ser um artigo único, é muitas vezes considerada obrigatória. A proximidade geográfica de um dos grandes pólos da indústria de moldes facilitou à Alidata a aproximação a esta área, para a qual adapta o seu ERP e onde tem conseguido coleccionar muitos clientes, tornando-se uma referência, como explica Jaime Gomes, sócio-gerente e director financeiro.

O principal desafio desta indústria é o facto de cada molde ser um artigo único. Envolve um projecto e todo o seu custeio, onde devem ser indexados todos os custos do processo (sejam projectos, ensaios, matérias-primas gastas, serviços externos eventualmente requisitados, etc.), para que se obtenha um custo efectivo do molde e poder apurar a sua rentabilidade real, detalha, acrescentando que também o planeamento é bastante importante neste sector, sendo os prazos de entrega um factor de diferenciação a respeitar em pormenor, pelo que é preciso saber a ocupação das máquinas e dos operários. A isto soma-se a necessidade de cruzamento do planeamento com a realidade, para serem feitos ajustes caso não esteja a ser cumprido na sua totalidade.

A InCentea, uma empresa localizada em Leiria, mantém igualmente em foco a adequação das soluções à indústria de moldes, desde as soluções de gestão (ERP) a soluções específicas para a produção, recolha de dados, entre outros, explica António Poças. O administrador da empresa adianta ainda que, fruto da integração recente no grupo de uma empresa do sector (CODI), a InCentea passou a contar também com soluções de CAD/CAM/CAE, PLM-Product Lifecycle Management, RP-Rapid Prototyping, alargando o seu portfolio.

Tendências bem desenhadas
Embora afectadas pela conjuntura económica, que teve um impacto significativo na indústria automóvel, prejudicando a área de moldes devido à elevada dependência deste mercado, as empresas deste cluster não têm descurado o investimento em tecnologias da informação e comunicação para se manterem ao melhor nível da competitividade. A convicção é de Manuel Oliveira, secretário-geral da CEFAMOL, a associação do sector, que admite que estas têm continuado a investir nas TI e na reorganização dos processos, embora não disponha de números concretos que o confirmem.

Do lado das empresas que vendem soluções as queixas são semelhantes às de outras áreas: os projectos arrastam-se à espera de uma decisão que tarda cada vez mais e, mesmo quando existe capacidade financeira há sempre receio do que pode acontecer.

«O problema das empresas de moldes neste momento é a falta de visibilidade. Quando há trabalho firme é para três ou quatro meses, mas existe alguma incerteza para o médio/longo prazo. O cash flow também está mais difícil, complicando o momento de querer investir em novas tecnologias», explica Nathalie Carreiras.

Mas as tendências de evolução desta área estão desenhadas e passam pela digitalização integral dos processos de gestão e processos produtivos, assim como a evolução natural das tecnologias de CAD/CAM/Gestão de Produção, e a maior interligação entre as três áreas, permitindo melhorar os fluxos de informação entre as diferentes fases de produção.

António Claro, director-geral da Mirakon AG, dá um exemplo, citando um projecto que a empresa tem na Alemanha, onde o software Mirakon lê do software de desenho a geometria e com base no conhecimento da empresa gera o processo de fabrico e faz o cálculo de custos, gerando após validação toda a programação NC, simulando de seguida essa programação NC antes do envio para a máquina (o que também poderia ser feito com um software de CAM) e de seguida envia para a máquina ou máquinas CNC que farão a fabricação da peça. «Isto automatiza os processos dos diversos sectores da empresa, minimizado a interacção manual com vários sistemas e diminuindo drasticamente o tempo do processo (de dias para horas)», acrescenta António Claro.

E, embora sublinhe que é difícil fazer futurologia nesta área, Rui Tocha, director-geral do CENTIMFE, admite que tendo presente o “Road-map” do desenvolvimento tecnológico preconizado pelo Pólo de Competitividade e Tecnologia Engineering & Tooling, «as questões organizacionais e as questões da optimização e integração das tecnologias irão assumir um papel decisivo na melhoria do relacionamento como os clientes e com o mercado». Assim, as células de produção, os processos “Lean”, os conceitos do “Agile Entreprise” e o desenvolvimento virtual de produtos vão estar na agenda do desenvolvimento desta indústria no futuro próximo.

Diversificar áreas e internacionalizar o sector
O sector automóvel continua a ser o grande cliente da indústria de moldes, uma dependência que se pretende contrariar, diversificando a oposta. O desenvolvimento de moldes para o fabrico de automóveis consome cerca de 80% da produção das empresas, uma especialização que traz vantagens mas também riscos elevados, que são mais patentes em épocas de redução de venda de automóveis, como a que estamos a atravessar. Por isso, as empresas desenvolveram no âmbito do Pólo de Competitividade e Tecnologia Engineering & Tooling um plano estratégico através do qual pretendem trabalhar nos próximos 10 anos a aproximação a seis sectores, onde se incluem o automóvel mas também aeronáutica, saúde, energia e ambiente, electrónica e embalagem. «Estão a ser desenvolvidos passos muito importantes para identificar e estudar estes novos mercados, conhecer os principais players, ajustar o modelo organizacional e produtivo e, naturalmente, promover activamente no mercado internacional as competências do “Engineering & Tooling from Portugal”», adianta Rui Tocha, director-geral do CENTIMFE, o centro tecnológico deste cluster que também participa no Pólo de Competitividade.

«Neste sentido, eu diria que estamos no bom caminho e já começamos a ter boas perspectivas de futuro», refere este responsável, mostrando o seu optimismo que alinha com a visão da associação do sector, a CEFAMOL.

Manuel Oliveira, secretário-geral da associação que reúne as principais empresas da indústria, lembra porém que este é um processo que «não se faz de um dia para o outro. As empresas estão claramente apostadas em alargar áreas, e há um esforço grande nesse sentido, mas o progresso é lento». A própria associação tem dinamizado planos de sensibilização, visitas e participação em feiras, assim como os estudos destinados a identificar planos de desenvolvimento e estratégias de negócio, admitido que os resultados serão mais visíveis a prazo.

Também a nível da internacionalização os números revelam uma realidade que em 2009 sofreu com a quebra de vendas, resultado da conjuntura internacional. O valor total de exportação da área de moldes elevou-se a 322 milhões de euros, um valor mais baixo do que o registado em 2008. «O primeiro trimestre de 2010 foi fraco a nível de negócio. Actualmente já estamos a sentir uma recuperação, mas não aos mesmos níveis conseguidos no passado», admite Manuel Oliveira. Entre os principais mercados de exportação está a Alemanha, com uma quota de 27%, seguida da Espanha e da França, com 20 e 15%, respectivamente.
E a recuperação vai depender da evolução da indústria internacional, sobretudo na área automóvel. «Esta área precisa de disparar. Há muitos projectos aprovados que estão congelados, o que dificulta a vida das empresas», adianta o secretário-geral da CEFAMOL.