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22 janeiro 04

Empresários trocam fato e gravata por fato de macaco

Durante a semana são empresários de fato e gravata, telemóvel de última geração colocado à cinta e portátil debaixo do braço, mas ao fim-de-semana transfiguram-se.
O fato de macaco substitui o fato e gravata, o telermóvel dá lugar à pá e ao guincho e o GPS é o único computador que lhes passa pelas mãos. O escritório, trocado pelo jipe, pelos grandes espaços abertos, pela lama e pela rocha, passa a ser uma recordação muito ténue, e o stress acumulado pura e simplesmente desaparece. Para além dos pilotos mais conhecidos, como Carlos Oliveira e Pedro Jordão, que participaram no dakar 2003, o tecido empresarial da região conta com outros campeões do TT.
“Há dois anos precisei de arranjar um escape para a rotina”, conta Jaime Gomes, administrador da Alidata, empresa de tecnologias da informação (TI). O médico receitou-lhe a prática de desporto e ele cumpriu. “Fui com uns amigos fazer um passeio TT. Gostei e comprei um jipe”. Depois foi vê-lo em passeios e provas todo-o-terreno, a suar as estopinhas para ultrapassar os obstáculos que fariam uma cabra montesa fugir de medo. Passado algum tempo, regressou ao médico muito menos stressado, assegura. “Não era bem neste tipo de desporto que ele tinha pensado…”, admite, com um sorriso.
O entusiasmo era tanto que teve que procurar um carro mais vocacionado para a dureza das provas. Artilhou um Toyota Land Cruiser, com 3.0L de cilindrada e uma manada de equídeos debaixo do capot que conta com, pelo menos, 170 reses (nunca as contou…).
A primeira prova onde Jaime Gomes participou foi nas Caldas da Rainha, onde alcançou o quarto lugar da sua série. “O que dá ‘pica’ é conseguir ultrapassar os obstáculos sem destruir o carro”, explicava, enquanto ao volante do seu jipe ultrapassava uma elevação quase vertical no terreno, dirigindo, de seguida, pelo meio de silvas, arbustos e árvores de todos os tipos, como se estivesse a passear calmamente à beira-mar.
É preciso alterar significativamente o carro para transpor os obstáculos que as organizações deste tipo de eventos criam nos percursos. Se não se tem cuidado o jipe pode ficar todo amassado. “Abusa-se das brincadeiras que se fazem nas provas”, lamenta o empresário. Tantas solicitações ao homem e à máquina fizeram-no concluir que era necessário preparar outro jipe, com vários sistemas de tracção, segurança, e um chassis mais curto. “Agora que está quase pronto tenho pena de o levar para as provas”, diz.

Confiança total no parceiro
Manuel Lopes e Rui Gaspar são uma das mais conhecidas duplas do “trial” nacional. Estes dois “trialeiros” são a regra que confirma a lei que diz que em equipa vencedora não se mexe. Juntos desde a primeira prova, a confiança entre ambos é total. “O Manuel, que vai ao volante, não se atreve a entrar num buraco sem que eu lhe diga que pode avnçar”, diz Rui Gaspar, também administrador de um empresa de TI, a Datamex. Nas provas, este empresário equilibra com o seu peso o jipe para que não capote ao ultrapassar obstáculos, estuda o terreno e dá indicações sobre o caminho a seguir, força, aceleração e ângulços de viragem, ao condutor.
Sem “sponsors” importantes ou apoios de qualquer tipo é a carolice que impele estes empresários a sair de casa ao fim-de-semana e a enfiarem-se no Land rover Defender especialmente preparado, no meio da lama. “É uma actividade puramente terapêutica”, mas os resultados são muito positivos, mesmo para quem apenas “brinca” com o “trial”. Recentemente o duo conseguiu classificar-se para participar no “4×4 Internacional Challenge”, na malásia, uma das provas rainhas deste desporto, semelhante ao extinto “Camel Trophy”.
A participação nas provas de “trial” começou como uma brincadeira entre amigos há cinco anos. “A proposta era irmos a um ‘Chalenge’ no Algarve. O concenso era que não estávamos preparados e que era melhor esquecer a ida”, recorda Manuel Lopes. Mas a idéia não saiu da cabeça dos dois amigos e, em menos de 15 dias, compraram um jipe, Manuel Lopes foi fazer um curso de TT a Sintra e rumaram ao Algarve. Classificaram-se logo em segundo lugar. Depoius nunca mais pararam.
O trabalho de desenvolvimento do carro nunca está concluído. “Corta-se de um lado, solda-se do outro, modofica-se isto e aquilo”. Além disso é ponto de honra levar o carro a rolar pela estrada para as provas. “Já regressou a casa coxo e sem o vidro da frente”, contam.
O “trial” pode ser a mais dura forma de TT, mas a saúde destes empresários é, literalmente de ferro.

in Jornal de Leiria